Vale lembrar: os evangélicos e a política brasileira

Postado em Atualizado em

by Lucas GamaA história da participação dos evangélicos no processo eleitoral brasileiro tem demonstrado que muitos não conseguem aliar sua fé com a ética que ela exige. A comunidade daqueles que dizem adorar o Deus e Pai de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo tem demonstrado um comportamento incompatível com essa relação.

Em 1989 nas eleições para Presidente da República, na qual concorreram Lula, Collor, Mário Covas, Ulisses Guimarães e Leonel Brizola, o ativismo eleitoral dos evangélicos não apareceu, porém no segundo turno, segundo Ricardo Mariano [1]:

Havia o temor, estimulado pela candidatura do PRN (extinto partido de Collor), de que Lula, numa aliança diabólica com o setor progressista da Igreja Católica, iria tolher a liberdade religiosa. Falava-se que os templos seriam transformados em armazéns e que os evangélicos seriam perseguidos e fuzilados em paredões. [2]

Sobre esse episódio o sociólogo Paul Freston [3] afirma que:

Os pentecostais, majoritariamente empregados no setor terciário derrotaram o candidato que muitos pastores taxavam de ateu que perseguiria as igrejas, preferindo o candidato chamado de “temente a Deus” que prometia combater a corrupção, um tema político de cunho moral e, portanto, facilmente compreensível para o evangélico despolitizado. [4]

Bom, não preciso falar qual o resultado do governo desse candidato “temente a Deus”, pois a história está aí pra isso, mas o que aconteceu com Lula e os evangélicos? Bem, as coisas mudaram, pois se em 1989, Lula era o satanás (ou o cão chupando manga), a partir das eleições de 2002 ele teve o apoio dos evangélicos. O que nos leva a fazer a mesma pergunta que o pastor Juber Gonçalves [5] fez em seu blog Cristianismo Radical: O que será que houve, foi mudança de ideologia ou puro oportunismo?[6]

Já em 2002 quando o irmão Anthony Garotinho concorreu às eleições para Presidente da República, fez da sua fé, estratégia de campanha eleitoral buscando o apoio dos evangélicos brasileiros, que não o fizeram em sua totalidade, conforme reportagem da Folha de São Paulo:

A estratégia do presidenciável Anthony Garotinho (PSB) de investir na evangelização de sua campanha para melhorar a posição nas pesquisas dividiu o próprio segmento evangélico.
As chamadas igrejas tradicionais, entre as quais a Presbiteriana, da qual faz parte o próprio Garotinho, consideram um erro de estratégia. As pentecostais, porém, apoiam o novo rumo da campanha.

Neste contexto lembro-me que diversos pastores midiáticos fizeram campanhas eleitorais em seus programas e usavam o texto bíblico de Deuteronômio 17.14-15 para fundamentar a crença de que crente só pode votar em crente, todavia quando a irmã Marina Silva concorreu em 2010 ao mesmo cargo pretendido por Garotinho, não contou com o apoio dos mesmos pastores e estes nem sequer usaram o texto acima para apoiar nossa irmã!

Mas por qual razão os irmãos Garotinho e Marina tiveram tratamentos tão diferenciados por parte de alguns líderes protestantes? Será que a interpretação dada em 2002 não servia para 2010? Será que tais líderes entenderam que estavam errados? Na verdade o que me parece é que a bíblia foi usada para fim diverso, por parte desses líderes, ao fazerem uso dela para conseguirem seus objetivos pessoais e/ou denominacionais.

A participação dos evangélicos na política nacional tem chamado a atenção de estudiosos como o sociólogo Ricardo Mariano que em entrevista dada a Roldão Arruda, da seção de Política do Estadão respondeu assim a pergunta:

Como o senhor vê o enorme destaque dado às igrejas evangélicas nas eleições deste ano (2012)?

O ingresso organizado dos evangélicos na política não é novo. Desde a segunda metade da década de 1980 ficou evidente o interesse desses religiosos pela política partidária, muito ávidos por recursos públicos, emissoras de rádio e TV, barganhas e alianças com candidatos e partidos e governantes. Eles participaram dos debates da Assembleia Constituinte, ajudaram o José Sarney a ampliar o mandato de quatro para cinco anos – em troca de concessões de emissoras e rádio e verbas públicas. No segundo turno das eleições de 1989, Fernando Collor de Mello conseguiu o apoio esmagador dos pentecostais contra a candidatura lulopetista. De lá para cá, a instrumentalização recíproca entre esses grupos, sobretudo pentecostais e neopentecostais, com candidatos, partidos e governantes tem se intensificado.[7]

É uma vergonha e uma triste realidade ver que parte dos evangélicos não amadureceram política e espiritualmente, ao fazerem dos espaços destinados a proclamação do evangelho em espaços para “evangelização” partidária do político A ou B; e o que dizer dos pastores que têm transformado suas igrejas em verdadeiros comitês políticos, como se vê nesta reportagem ou ainda daqueles que têm feito de seus rebanhos títeres para votarem em quem eles querem que ganhem  e ainda os enganam com o discurso de que crente deve votar em crente ou daqueles que apoiam determinado candidato em troca de favores, concessões de rádios e TV, secretárias, ministérios, prestigio social etc.

Diante dessas condutas inapropriadas encontramos focos de luzes que surgem para dizer “não, não é assim que o evangelho ensina e nem deve ser esta a postura cristã na política” e dentre estes focos posso destacar as falas de pastores e irmãos que andam na contramão deste processo alienante e entende que “o discurso de um candidato deve ser para todos os brasileiros, católicos, umbandistas, espíritas, ateus… deve ser um discurso mais abrangente”; que não se governa ou se faz leis para um segmento da sociedade, mas para a sociedade; que precisamos acordar e buscar nossa maturidade política, bem como sermos conscientes e conscientizadores do papel de cada cidadão e da responsabilidade de seu voto; que não cabe ao pastor ou qualquer outra autoridade religiosa dizer em quem devemos votar, mas nós mesmos devemos tomar tal decisão.

Dentre esses irmãos, devo destacar o papel que a Rede FALE tem tido neste ano com sua campanha conscientizadora contra o voto de cajado e em fomentar o debate sobre os evangélicos e o voto, que tem atraído a atenção da mídia, fazendo-me lembrar das palavras de Jesus: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” Estes irmãos demonstram que política é coisa de crente e que o exercício da cidadania faz parte da nossa vocação como luz do mundo e sal da terra.

Naquele que espera que nossa fé se relacione com a ética de seu Reino,
Zé Bruno


Notas

[1] Ricardo Mariano, um dos principais estudiosos do neopentecostalismo no Brasil, é doutor em sociologia pela USP e autor do livro Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. Ele coordena o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

[2] http://blogs.estadao.com.br/roldao-arruda/misturar-igreja-com-politica-partidaria-extrapola-a-lei-e-o-ideario-republicano/

[3] Paul Freston é inglês naturalizado brasileiro, é doutor em sociologia pela UNICAMP. É professor do programa de pós-graduação em ciências sociais na Universidade Federal de São Carlos e, desde 2003, professor catedrático de sociologia no Calvin College, nos Estados Unidos. Escreveu também, entre outros, Evangélicos na Política Brasileira: história ambígua e desafios éticos (EncontroPublicações), Evangelicals and Politics in Asia, Africa and Latin America (Cambridge University Press), Protestant Political Parties: A Global Survey (Ashgate) e Evangelical Christianity and Democracy in Latin America (Oxford University Press).

[4] Freston, Paul. Fé Bíblica e Crise Brasileira – Posses e Política; Esoterismo e Ecumenismo. 1ªed. ABU Editora, 1992, São Paulo, p.75-76

[5] Juber Donizete Gonçalves é casado, ministro do Evangelho. Possui formação em Teologia e Geografia, com Pós-Graduação em Psicopedagogia. Palestrante nas áreas de Missões, Apologia e Escatologia. Atualmente, é Pastor auxiliar da Igreja Assembléia de Deus Missão aos Povos em Uberlândia.

[6] http://juberdonizete.blogspot.com.br/2010/04/lula-caio-fabio-julio-severo-e-os.html

[7] http://blogs.estadao.com.br/roldao-arruda/misturar-igreja-com-politica-partidaria-extrapola-a-lei-e-o-ideario-republicano/

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7 comentários em “Vale lembrar: os evangélicos e a política brasileira

    Julio Munhoz disse:
    18 de setembro de 2012 às 8:41 pm

    Caro amigo você esta de parabéns, a informação que estas apresentando é de vital importância, aqui na minha cidade tinha um pastor que pregavam pela radio para não votar no Lula (2002), o argumento era: vai fechar as Igrejas; o que chamou a minha atenção, era que ele falava que tinha as provas documentarias; claro, nunca as apresentou. Manipular o voto de parte dos lideres religiosos se a tornado uma rotina e quem pensa o contrario -segundo eles- esta possuído do capeta.
    Caro amigo, tenho um pequeno jornal cristão, de distribuição gratuita na cidade de São Sebastião do Paraíso – MG e gostaria publicar teu artigo.
    Meu E-mail: juliom33@latinmail.com

    Forte abraço
    Julio Munhoz

    Wagner disse:
    18 de setembro de 2012 às 10:49 pm

    Concordo com vc Zé Bruno. Somente haverá qualquer tipo de mudança no cenário político-social no qual estamos inseridos se, cada vez mais, as pessoas se politizarem e ampliarem suas visões do processo político, mudando-a. Precisamos evoluir da “cultura” do voto de cabresto e da barganha por votos! Caso contrário, não sairemos do caos na educação, saúde e segurança que nossa sociedade está mergulhada.

    Tamyres disse:
    19 de setembro de 2012 às 5:56 pm

    Muito interessante, gostei.

    Alex Balbino disse:
    20 de setembro de 2012 às 8:37 am

    Eu estou ligado que você, Zé Bruno, está querendo ser candidato nas eleições futuras! Já tenho uma chamada pra sua candidatura: “Ele é homem de fé. Vote no Zé!”

    Fernando disse:
    20 de setembro de 2012 às 10:10 pm

    Excelente!!!

    Marquinhos disse:
    21 de setembro de 2012 às 12:08 am

    Texto muito bom! Pode até estar distante, mas também espero pelos dias nos quais a Igreja irá assumir o seu verdadeiro papel de agente transformador da sociedade e não apenas um microcosmo, com seus próprios costumes, regras e mercado.

    Joquebede Moura disse:
    12 de outubro de 2012 às 5:40 pm

    como vc falou tudo… fikei sem assunto…
    parabéns pelo texto!!! concordo com cada vírgula, bom saber que tem gente pensando diferente…

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