Deus não é sobrenatural!

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Olhai as aves do céu…

Eu não gosto do uso da palavra sobrenatural em relação a Deus. Não é que eu não goste por mero capricho, mas por três motivos: Deus não é sobrenatural; o mau uso desta palavra acaba criando frustrados ou cínicos; e seu uso cega-nos para a “naturalidade” de Deus e de seu modus operandi.

Um ser ou um evento é sobrenatural quando não provém da natureza, logo sua explicação não se submete as leis naturais. Se a criação fosse entendida apenas como uma criação natural, o adjetivo seria correto, todavia Paulo, apóstolo, nos diz que a criação é composta tanto de elementos naturais quanto de sobrenaturais:

Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.
E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.[1]

A criação não é formada apenas por aquilo que podemos ver ou conhecer, mas também por um mundo invisível, com seres e lugares invisíveis, criados antes dos humanos e do mundo, que podem ser bons ou maus e assim como os seres humanos, são criações de Deus.

Dizer que Deus é sobrenatural é desconsiderar no uso desta palavra que o Criador está também acima do sobrenatural. Sendo assim, melhor seria fazermos coro com a teologia cristã que cunhou a palavra transcendência como atributo divino, mas não inventou a roda, apenas codificou neste termo parte daquilo que as Escrituras já diziam acerca da divindade em relação a sua criação.

Transcendência é um atributo divino que diz que a divindade está acima da sua criação, quer natural quer sobrenatural, e assim não se confunde com ela. Em seu livro Vivendo com Propósitos, Ed René Kivitz nos oferece uma explicação mais refinada:

A transcendência trata do Deus Totalmente Outro, como se referem os teólogos, aquele que “habita em luz inacessível”… Deus está no mundo, mas não é o mundo. Deus abrange o todo, mas é mais do que o todo. Deus está aqui e além. Por uma razão simples, Deus é, e não pode ser contido pelo que está.[2]

Outro motivo que me faz não gostar do uso da palavra sobrenatural em relação a Deus é que os discursos popularizados nos jargões, canções e preleções fomentam uma expectativa que só poderá ser satisfeita com o “sobrenatural” e assim tem gerado uma geração de crente frustrados ou cínicos. Frustrados porque suas expectativas não são atendidas e cínicos porque quando frustrados, ignoram isto e continuam na mesma.

A última razão é derivada da segunda, pois por falarmos como pensamos, expressões do tipo “receba o sobrenatural de Deus”, “vivendo no sobrenatural de Deus” e outras correlatas criam uma imagem limitada da divindade, dando a percepção de que o Altíssimo só age de maneira sobrenatural, logo a cura do câncer de forma sobrenatural é facilmente atribuída a Deus, todavia a cura do mesmo câncer através da ciência médica não é vista como uma ‘cura divina’.

Esta visão parcial do modus operandi divino nos rouba a graça da vida, pois deixamos de ver Deus na natureza e é ela quem nos revela o seu poder:

Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis[3]

A presença de Deus na criação é o atributo da imanência, o qual nos permite vê-Lo nela. Se a transcendência torna Deus distante e inacessível, é a imanência que O faz permear o mundo e torna-O perceptível. Conforme se expressou Paulo:

Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de tudo (transcendência), por tudo e em tudo (imanência)[4]

No demais, que possamos ser mais reflexivos e que avaliemos sempre nossos discursos e linguagens pelo crivo do evangelho, afinal os discursos de qualquer natureza têm muito a nos revelar acerca daqueles que os proferem e com relação aquilo que alguns evangélicos brasileiros andam cantando, pregando e escrevendo, percebe-se um distanciamento entre o discurso e as Escrituras que não deixa de ser tão grave quanto o distanciamento entre a vida e a fé!

 Naquele que transcende e imana toda a criação,
Zé Bruno


Notas

[1] Colossenses 1:16-17

[2]  KIVITZ, Ed René. Vivendo com Propósitos. 1ª ed. Editora Mundo Cristão. 2006, p. 46-47

[3] Romanos 1.20 [NVI]

[4] Éfesios 4.6

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7 comentários em “Deus não é sobrenatural!

    thiagosouzamrmagoo disse:
    8 de novembro de 2012 às 12:48 pm

    Visão legal. Nomenclaturas não são tão relevantes pra mim, mas o valor que se atribui a elas. Se as pessoas dizem que Deus age sobrenaturalmente, não quer dizer exatamente que Deus não age naturalmente. Deus é natural, mas age sobrenaturalmente. O que acontece, porém é que as pessoas não entendem que Deus, sendo natural, também age naturalmente, e principalmente naturalmente. Eu prefiro viver Deus em qualquer que seja a sua manifestação.

    Bom texto! PaZ!

      jean pierre disse:
      9 de novembro de 2012 às 12:13 am

      Caro Thiago, penso que, torna-se imperioso salientarmos que ao falar-se de etimologia dos vernáculos bíblicos, no contexto hermenêutico, somos envoltos pelo manto massoreta que, traduz-se em rigor interpretativo e inflexibilidade ao relativismo crônico, uma vez que, enquanto operadores – não meros operários – somos impelidos pela análise principiológica dos pressupostos inerentes a construção argumentativa a não recepcionar conceituações ou terminologias que se furtem ao exercício semântico incorrendo, por conseguinte, em interpretações díspares e anacrônicos ao princípio da não contradição onde, algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Posto isto compartilho de pensamento do Zé. Paz. Forte abraço.

        thiagosouzamrmagoo disse:
        9 de novembro de 2012 às 12:34 am

        Não entendi o que você falou. Só a última parte sobre ser e não ser ao mesmo tempo. Mas não falei nada sobre algo ser e não ser. Enfim =x

    Honório disse:
    8 de novembro de 2012 às 5:45 pm

    Bruno, não tinha pensado assim ainda. Mto legal olhar as coisas por outro lado, com outra pespectiva. O termo “mover sobrenatural” acaba mascarando mesmo as ações naturais de Deus. Ponto pra vc por usar “modus operandi” hahaha
    Mais um bom texto, parabéns! Grande abraço

    Pavalinks(7) | Pavablog disse:
    11 de novembro de 2012 às 9:30 pm

    […] Reflexão: Deus não é sobrenatural […]

    Daniel Serrano disse:
    12 de novembro de 2012 às 9:24 pm

    A definição de Deus com uma palavra é ruim por que automaticamente já faz uma limitação.

    E essa associação de Deus ao “sobrenatural” sempre leva as pessoas a um entendimento errado dEle, como sendo algo místico apenas, um verdadeiro “misticismo gospel”.

    Aí vem a busca por “experiências” e “momentos” e “unções”.

    É muita aspa nesse meu comentário! Talvez por que eu esteja me referindo a um “cristianismo” hahahaha

    Gustavo disse:
    26 de dezembro de 2012 às 7:13 pm

    “Todos os seres criados, de maneira especial os homens e os anjos, estão sob o regime da providência sobrenatural. Sob essa Providência, Deus tem um desígnio a nosso respeito: oferece-nos a salvação através da mediação de Cristo. A Utilização do termo “sobrenatural” não exclui o que é “natural” ao ser humano. Porém, não se pode relativizar e achar que o homem vai encontrar a felicidade no plano meramente natural, pois Deus propôs à humanidade uma vocação sobrenatural, desaparecendo assim, todo lugar para um fim último natural. As duas dimensões integram a existência humana de forma intrínseca”.

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