A espiritualidade cristã e a arte de ouvir Deus

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Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho.

Hebreus 1.1

Photo by Melvin Gaal
Photo by Melvin Gaal

O autor de Hebreus inicia seu tratado fazendo uma declaração histórica: Deus fala! Isso mesmo o Deus de Abraão, que é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo falou no passado e nos fala ainda hoje.

No passado Ele falou pelos profetas, por sonhos, por visões, por anjos, por animais e por situações, todavia dentre estes diversos meios, a comunicação através dos profetas tem um papel especial, visto que não eram apenas comunicadores da revelação divina, mas mediadores entre Deus e os homens.

Segundo o rabino Heschel[1] os profetas não recebiam as palavras de Deus, mas o pathos divino. O pathos é uma palavra grega que significa sofrimento, sentimento, emoção, doença, paixão etc. Assim, Deus derramava ou compartilhava seu pathos ao profeta e este traduzia em palavras esta carga de emoção.

O profeta não era um comunicar frio e alheio a seus ouvintes, mas ao abrir a boca ou agir de forma profética, ele o fazia com pathos, conforme o comentário do Pe. Xavier acerca da teologia do pathos:

O que está por trás destas palavras é que a revelação divina que o profeta bíblico comunica ao povo eleito, sustenta Heschel, nasce do pathos divino por Israel. As palavras proféticas exprimem, de modo multiforme, este sentimento de Deus. E neste sentimento se colhem ora a ira e a desilusão de Deus, ora o amor e a benevolência. A experiência do profeta é como se ele experimentasse os sentimentos de Deus, com o pathos de Deus, que é o que move, no fundo, a profecia.[2]

O Deus que fala, fala com emoção, com paixão, com sentimento e não apenas fala, mas ao agir, age da mesma maneira, afinal encontramos diversas referências que diz: Jesus “movido de íntima compaixão” fez isso e aquilo.[3] O que nos leva a crer que o Deus revelado em Jesus é um Deus passional.

Hoje Deus fala através do seu Filho, sim o Filho é posto aqui como um substituto superior aos profetas tanto na mediação quanto na revelação, pois enquanto os profetas recebiam o pathos divino, o Filho é descrito como “o resplendor da sua glória [de Deus], e a expressa imagem da sua pessoa,” ou nas palavras de Paulo, Jesus é a “imagem [visível] do Deus invisível”[4] e “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”.[5]

Mateus nos conta que Jesus subiu um monte acompanhado de Pedro, Tiago e João e lá

Jesus foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias.

Pedro ao propor fazer uma tenda para cada um estava de certa forma pondo-os no mesmo patamar, todavia Jesus não estava ali como mais um, por isso:

Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.

Deus deixa claro para Pedro e seus companheiros que não era a Moisés ou a Elias que deviam ouvir, não era nem a Lei nem os profetas que deviam ouvir, mas a partir daquele momento Deus estava falando pelo Filho, pois o Filho é a exata expressão de Deus.

Quando as igrejas da Ásia Menor receberam suas cartas todas elas foram exortadas nas suas particularidades, porém há uma exortação comum a todas: “Quem tem ouvido ouça o que o Espírito diz as Igrejas.”

A espiritualidade cristã está atrelada ao ato de ouvir Deus e em respondê-Lo com obediência.

A profissão de fé judaica inicia com “Ouve Israel”. A resposta a este ouvir é a obediência a Deus. Tanto no hebraico quanto no grego e há quem diga que no português também a palavra obediência esta ligada etimologicamente ao verbo ouvir.

Deus não apenas fala, mas quer ser ouvido! Um relacionamento com Deus inicia a partir do momento que respondemos aquilo que Ele fala. É importante falarmos com Deus, é importante orarmos a Deus, mas também é importante ouvirmos Sua voz.

Em tempos como o nosso de superficialidade bíblica, em que vemos uma geração de oba-oba, sem “sustância espiritual”,  distraída com o bens e serviços o mercado gospel que está pouco preocupado com “a verdade do evangelho”, mas apenas com aquilo que venda precisamos reaver antiga arte de ouvir, mas a de ouvir Deus.

Sei que há muito barulho em nossos dias, sei que há muitas vozes por aí, sei que nosso ego procura aquelas que falam aquilo que o agrada, mas se queremos estar prontos para as adversidades da vida, para as aflições do mundo, para as crises de fé, para as frustrações ou decepções, e para qualquer evento ou situação cujo fim seja nossa destruição, precisamos ouvir o Filho amado:

Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda.

Mateus 7:24-27

Naquele cuja palavra fez-se carne e habitou entre nós,

Zé Bruno


Notas

[1] Abraham Joshua Heschel foi um rabino austro-americano e um dos principais teólogos e filósofos judeus do século 20. Escrveu vários livros como “Deus em busca do homem”, “o Shabat” e sua obra prima “The Prophets”.

[2] XAVIER, Thadeu (Pe.). Deus e a História: História da Salvação e experiência de fé segundo o Rabino A. J. Heschel. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=XYlPV-wE7I8C&pg=PA80&lpg=PA80&dq=A+teologia+do+pathos&source=bl&ots=WpLw7Jx-kn&sig=oGJs174CN0E5r22rpArPXKX7xFw&hl=pt-BR&sa=X&ei=abLhUO2fNI-o8ASQwYGoBA&ved=0CE8Q6AEwBQ#v=onepage&q=A%20teologia%20do%20pathos&f=false. Acesso em: 31 de dezembro de 2012

[3] Mateus 20.34; Lucas 7.13

[4]  Colossenses 1.15

[5]  Colossenses 2.9

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Um comentário em “A espiritualidade cristã e a arte de ouvir Deus

    Marcia disse:
    9 de janeiro de 2013 às 7:02 pm

    “Como são doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais do que o mel para a minha boca.”

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