De Shakespeare a Harry Potter – uma reflexão sobre heroísmo

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por Tig Vieira

bloch_agony_in_the_garden_s1Vocês já repararam que todas as maiores obras populares da literatura, do cinema e dos quadrinhos têm um ponto em comum, que é o constante conflito de personagens centrais em se tornarem perversos e malignos, e lutar contra isso de maneira quase violenta?

Porque Harry Potter quase foi mandado pra casa que mais elegeu Comensais da Morte em toda a história dos bruxos, a Sonserina, e por pouco não se perde em sua arrogância. O professor Severo Snape, que sempre foi desconfiado pelo leitor, já sacava isso.

Frodo Bolseiro teve diversas oportunidades de se perder a Sauron, sendo seduzido pelo Um Anel, e por pouco não se perdeu de fato – não fosse o fiel e dedicado Samwise Gamgi, seu amigo mais que leal, que o negou a própria vontade de proteger o que para si era “Precioso”.

Não preciso falar nada de Anakin Skywalker, que não somente andou por muito tempo sobre a linha limítrofe que separa o lado claro e o escuro da força, como acabou se perdendo definitivamente para o lado de lá, e se arrependeu muito antes do fim.

E isso se repete em todas as obras que tenho memória, inclusive em contos clássicos, como o Rei Arthur, e até em dramas Shakespearianos, e pode dizer um pouco sobre o que a humanidade já desconfia, no subtexto da sua própria história, o Livro da Vida: Somos maus, totalmente corrompíveis. Nossa aparência de bondade não é nada, se não uma máscara que vestimos por um breve momento, que sempre cai ao sermos confrontados em nossas necessidades ou desejos. Mas, por mais absurdo que pareça, lutamos contra nossa própria capacidade de destruição, negamos nosso mal mesmo que de maneira involuntária, e sonhamos em ser alguém melhor antes que as páginas de nosso próprio livro acabe, ou que entrem os créditos finais.

Os maiores rivais nunca foram Saurons, Voldemorts ou O Império, foram os próprios heróis. A vitória não é do soldado puro que ressurgiu da morte; é de quem venceu aquele mal secreto, que por pouco não saiu de seu esconderijo e mostrou as garras diante de uma platéia atônita, que são aqueles que nos admiram e nos observam a cada passo. Nós somos nossos próprios rivais, e a salvação, nosso messias e nosso próprio herói, habita dentro de nós.

Lembro (do mito, da verdade) de Jesus ajoelhado no Getsemani. Depois de 40 dias de deserto, onde lhe foi oferecido por Satanás, seu maior rival, todo o bem do mundo, prazeres e riquezas sem fim, e de tantas outras tentativas que foram narradas nas páginas do evangelho em transformá-lo numa figura política, pervertida, adorador de homens e de demônios, ele chorava em prantos, pedindo ao Pai que o livrasse da dor que Ele sabia que deveria enfrentar. Sozinho. E antes de salvar toda a humanidade, Ele se salvou. Ele, que para muitos é o exemplo derradeiro, a máxima figura de um herói.

Por isso, para mim, verdadeiro é quem entende que por si só não pode nada. Quem depende, confia e se submete aos outros. Tem gente que pensa que o inferno é um lugar quente e lotado de almas atormentadas. Eu já acho que é um lugar frio e solitário, onde apenas uma alma habita: aquela que se perdeu; e o que queima é o gelo do silêncio, o que atormenta é a solidão de quem já não tem mais afeto, nem carinho, que não sabe mais pedir perdão ou ouvir quem pede socorro porque também está se perdendo para outro canto tão solitário e vazio quanto o seu.

Fonte: https://www.facebook.com/tig.vieira/posts/10202133447283621


Tig-vieira-iconTig Vieira é de Guarulhos, mas mora em Dourados, Mato Grosso do Sul, onde estuda Relações Internacionais. Seu principal hobby é a escrita e comer, mas vive mesmo de videogame, teatro, literatura e cinema (não necessariamente nessa mesma ordem). Membro honorário da Capital Augusta, uma comunidade de cristãos que tentam viver o evangelho mesmo sendo pecadores, entre outros pecadores.

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2 comentários em “De Shakespeare a Harry Potter – uma reflexão sobre heroísmo

    Rosimeire disse:
    4 de outubro de 2013 às 12:11 pm

    muito bom

    israel kalebe campos disse:
    5 de junho de 2014 às 8:08 pm

    Cara, que texto legal…
    Quase nunca pensamos na humanidade de Jesus e se ele sucumbe naquele momento decisivo no Getsêmani, estaríamos todos fritos… Sem mais, Viva nosso Herói!

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